Exposição Permanente

Histórias da Casa do Estudante do Ceará

Memorar e comemorar: 91 anos de idealização e concretude

Capa Memorial

Autoras: Afonsina Maria Augusto Moreira, Thais Berdine Euclides Teixeira e Vitorya Costa de Almeida

Fortaleza, 2025

Jovens, sonhadoras e sonhadores, saem do seu interior para a cidade grande no intuito de continuar a formação estudantil e conquistar uma profissão que propicie melhores condições de vida. Essa pequena frase resume a vivência comum da juventude que se arrisca por um futuro diferente. O ponto de ligação dessa narrativa é uma casa que oferece acolhimento gratuito no momento decisivo da trajetória desses estudantes, mas essa não é a história de qualquer casa. Há muitas décadas, a Casa do Estudante do Ceará - CEC atravessa a vida de muitas pessoas do Brasil. Com essa exposição permanente na própria Casa, apresentamos um pouco dessas histórias, construções de memórias e lutas das pessoas que ousaram idealizar e colocar de pé esses sonhos. Destacamos alguns dos principais marcos, marcas de desafios da Casa do Estudante até os dias de hoje.

A Casa do Estudante do Ceará - CEC traz na sua materialidade as ideias da luta estudantil. Esse teto abriga, acolhe e possibilita a promoção dos ideais juvenis. Nesse ambiente coletivo, há troca e partilha entre as moradoras e os moradores, promovendo a união na construção de uma realidade melhor. Coletivo que também é sinônimo de luta e centro de reivindicação de direitos. A CEC é o estado concreto dos propósitos dos movimentos de estudantes ao longo da história, desde sua ideação à atualidade.

CoMemorar os 91 anos da Casa do Estudante é celebrar a memória de maneira sistematizada, demonstrando a importância dessa morada para a continuidade da formação estudantil. Memorar como um ato de instrumentalização e atualização da luta por melhores condições de moradia. Portanto, trazer à tona vestígios desse passado no diálogo comemorativo por meio da exposição museológica, é um ato de profunda relevância para a vida longa e de qualidade da Casa do Estudante do Ceará e da formação continuada dessa juventude, portanto, um ato em defesa da democratização da educação.

Há muitas indagações sobre as histórias da Casa do Estudante do Ceará. Ressaltamos que esse Memorial é um marco do nosso campo de expectativas para mais experiências na construção dessas histórias. É pertinente o nosso desejo e nossas ações na continuidade dos estudos e pesquisas sobre a Casa do Estudante.

2025 marca os 91 anos de muitas histórias de luta em prol da Casa do Estudante do Ceará. Com a reelaboração da primeira versão do Memorial de 2024 “Casa do Estudante do Ceará: memorar e comemorar os 90 anos de concretude” tivemos por objetivo apresentar aspectos pertinentes da trajetória da Casa para os próprios moradores e moradoras atuais; demais estudantes; professoras e professores; representantes políticos e público em geral, despertando ainda mais o interesse por esse patrimônio estudantil do Ceará e o compromisso por sua constante revitalização.

 
1 Curadoria, pesquisa e montagem do Memorial da Casa do Estudante do Ceará: Afonsina Maria Augusto Moreira, Thais Berdine Euclides Teixeira e Vitorya Costa de Almeida. Algumas fotos retratam partes do material exposto no Memorial. Para obter mais informações sobre as autoras, conferir os minicurrículos no final do texto.

Saudamos à Casa do Estudante do Ceará.

Item do Acervo: A Fotografia

Câmera Reflex 1 Câmera Reflex 2

As câmeras reflex de lentes gêmeas foram utilizadas desde o final da década de 1920 até meados da década de 1970, predominantemente por profissionais. Seus filmes, de formato maior que os utilizados na maioria das câmeras amadoras, permitiam fotos com maior resolução e ofereciam mais versatilidade na edição e no enquadramento durante a revelação e cópias.

Acervo pessoal de Renato Ribeiro / Afonsina Moreira.

Resumo do conteúdo exposto

Resumo 1
Resumo 2

A história da Casa do Estudante do Ceará é um importante capítulo do movimento estudantil alencarino, uma vez que nos situa como, ao longo da história, a juventude vivenciou seus desafios e conquistas. A própria ideia de juventude precisa ser investigada continuamente em seu decurso histórico, sendo mais apropriado pensá-la em sua pluralidade.

A criação da Casa do Estudante entre 1930 e 1950 está entrelaçada com a história da entidade estudantil Centro Estudantal Cearense - CEC, compondo um lugar de memória na história da cidade de Fortaleza. Na revista do Centro Estudantal, Folha Estudantal, de março de 1934, foi publicado um artigo intitulado "A Casa do Estudante", enfatizando a necessidade da construção de uma Casa do Estudante definitiva, que serviria como um monumento representando o progresso juvenil de Fortaleza e os ideais daquela juventude.

O papel da Casa do Estudante, no período da ditadura civil militar de 1960 e 1970, é uma temática que requer estudo aprofundado. Diálogos com ex-moradores confirmam a tentativa de silenciamento das experiências estudantis naquele momento. Os mesmos relataram possíveis lugares da Casa que teriam servido de refúgio, a exemplo do sótão denominado ¨Vietnã”, esconderijo de perseguidos políticos. Já nos anos de abertura política de 1980, há diversos documentos do movimento estudantil guardados no acervo da Casa. Dentre esses documentos, há relatos denunciando as péssimas condições de moradia, como foi possível identificar no pronunciamento de Alonso Alencar, presidente da Casa em 1986, no encontro de casas estudantis, registrado em relatório de 12 de agosto daquele ano.

Existia resistência à ideia da Casa se tornar uma residência mista. O grande desafio das primeiras mulheres foi exatamente esse, ter que lutar por seu espaço. Apesar de conquistarem oficialmente as vagas na década de 1990, o machismo foi e é um elemento de impasse. Casos de assédio geraram polêmicas nas assembleias. Atualmente, a igualdade de gênero na instituição ainda é tema sensível. Outras pautas como o racismo e LGBT+fobia também são de constante discussão, já que estão presentes no cotidiano dos moradores e moradoras.

A Casa apresenta diversos desafios internos e externos, com dificuldade de obter apoio para a manutenção da estrutura física do prédio e projetos de melhoria da qualidade de vida dos residentes. Dentro dessa construção coletiva, é possível observar como a proposta de uma Casa do Estudante pode contribuir muito além da permanência estudantil. Nesse ambiente, é possível formar pessoas com senso de coletividade, politizadas e atuantes.

Desafios 1
Desafios 2
Maria Luíza

Foto da prefeita Maria Luíza Fontenele na Casa do Estudante em 1988 - Acervo da Casa do Estudante.

Maria Luíza Fontenele

Maria Luíza Fontenele foi a primeira mulher eleita prefeita de uma capital de estado brasileiro, ao governar Fortaleza entre 1986 e 1988. Maria Luíza contribuiu com a Casa do Estudante. Maria marca a história política do país. É militante dos movimentos sociais, professora aposentada da Universidade Federal do Ceará e ex-parlamentar. Destacou-se na luta contra a ditadura militar e na defesa da participação popular, tornando-se referência para gerações de movimentos sociais e feministas.

Maria Luíza é referência de garra, amorosidade, generosidade e honestidade. Entre prosa e poesia, Maria espalha esperança e alegria. Lembrando que não estamos sozinhas, sonhamos juntas, lutamos irmanadas. Delicadeza e força marcam essa mulher, ao lado de mulheres guerreiras e generosas como Fátima da Fonseca, Rosa da Fonseca, Sandra Helena Freitas e Célia Zanetti.

A Casa do Estudante do Ceará e o Centro Estudantal Cearense

Centro Estudantal 1
Centro Estudantal 2

O Centro Estudantal Cearense - CEC foi uma entidade estudantil fundada em Fortaleza no dia 11 de agosto de 1931. Após reuniões e debates, os estudantes do Centro Liceal (do Colégio Liceu do Ceará), aliados a estudantes de outros colégios da capital, viram a necessidade de criar uma agremiação em resposta à falta de representação estudantil para além dos estabelecimentos de ensino e grêmios com finalidades exclusivamente literárias. Buscando atender às demandas e reivindicações dos discentes, o Centro Estudantal tinha em sua estrutura centrista cerca de 16 departamentos que se distribuíam nos âmbitos assistenciais, transitando pelo campo educacional, literário, esportivo, de controle e de disciplina dos estudantes. Dentre esses departamentos destacam-se: a Casa do Estudante do Ceará; Folha Estudantal; Escolas 1° de março e 6 de novembro; Departamento de Cultura; Departamento de Legislação; Departamento de Publicidade e Propaganda; Museu do Estudante e Polícia Estudantal.

Levando-se em consideração o nosso estranhamento em relação a um departamento estudantil, de uma entidade estudantil, chamado “Polícia Estudantal”, é do nosso interesse apresentar noutro momento os estudos a esse respeito.

A intenção era de que o Centro Estudantal Cearense - CEC fosse um marco divisor, simbolizando a entrada para o “novo”, ágil e agregador, diferente do passado sem uma entidade estudantil que congregasse e representasse os estudantes de todos os estabelecimentos de ensino.

Para esse momento, vale enfatizar que a Casa do Estudante do Ceará - CEC era um departamento do Centro Estudantal Cearense - CEC, ambos com a mesma sigla CEC.

A Revista Folha Estudantal e a Casa do Estudante

Revista Folha Estudantal

Capa da Revista Folha Estudantal (1934)

A revista Folha Estudantal foi outro departamento do Centro Estudantal Cearense – CEC. Essa revista foi um veículo de imprensa estudantil destinada a divulgar a ações, campanhas, iniciativas, ideias e ideais dessa juventude.

Na edição da Folha Estudantal, de março de 1934, foi publicado o artigo "A Casa do Estudante”, comemorando o primeiro ano de aniversário da Casa, que, até então, localizava-se provisoriamente na esquina da rua Senador Pompeu com a rua São Paulo no Centro de Fortaleza. Na matéria, foi ressaltada a necessidade de construção de uma Casa do Estudante definitiva, que serviria como um monumento representativo da juventude estudantil e os ideais dos jovens do CEC.

Uma das Curadoras do Memorial da Casa do Estudante é a professora de História Afonsina Maria Augusto Moreira. Afonsina é autora do livro intitulado Juventude da Pátria A(r)mada: o Centro Estudantal Cearense em Fortaleza, 1931-1945. 

Fruto de sua dissertação de mestrado em História, nesse livro há um capítulo dedicado à história da Casa do Estudante do Ceará. Ele foi um dos livros utilizados no processo de elaboração do Memorial, inclusive, faz parte da exposição e está disponível para leitura na Biblioteca da Casa. Dentre as importantes questões desse estudo, destacamos duas: a primeira está relacionada à luta dos jovens estudantes em auxiliar seus pares, com o Centro Estudantal representando os anseios e ambições de seus associados e demais estudantes. A segunda questão trata da construção da Casa do Estudante do Ceará, edifício que concretamente pudesse perdurar por várias gerações, simbolizando a continuidade e a solidez dos ideais estudantis. 

O Centro Estudantal, a Casa do Estudante e os escritores Raimundo Girão e Antônio Martins Filho (primeiro Reitor da UFC) 

Livros Históricos

Obras de Martins Filho e Raimundo Girão

Antônio Martins Filho e Raimundo Girão publicaram o livro O Ceará em 1939. Definiram sua obra como um “documentário”, cuja intenção foi divulgar um criterioso estudo da história do nosso Estado. Há um capítulo dedicado à entidade estudantil Centro Estudantal Cearense, com destaque para sua atuação na criação da Casa do Estudante.

Professor da Faculdade de Direito do Ceará a partir da década de 1940, Martins Filho foi o primeiro reitor da Universidade Federal do Ceará - UFC. Ele recebeu várias homenagens pelos serviços prestados à educação, nos jardins da Reitoria da UFC há uma estátua de bronze de Martins Filho. O nome do restaurante da Casa do Estudante é Martins Filho, como é possível ver na placa de bronze anexada no refeitório da Casa, cuja foto consta no Memorial. 

O historiador Raimundo Girão foi prefeito de Fortaleza no início da década de 1930, há uma avenida na cidade que leva o seu nome. Temos no Memorial, um de seus inúmeros livros A abolição no Ceará, publicado em 1956, e também um livro de Martins Filho. Vale destacar, que todos os livros da exposição são do acervo da Biblioteca da Casa do Estudante, e aqui reiteramos a importância das doações de livros para a nossa Biblioteca.

O poeta Sidney Neto e a Casa do Estudante

Sidney Neto 1
Sidney Neto 2

Retrato do Poeta Sidney Neto

José Vicente Sidney Neto, conhecido como Poeta SIDNEY Neto, possivelmente foi o doador do terreno em que a Casa do Estudante se encontra edificada. Nasceu em Fortaleza no dia 16 de setembro de 1892. Faleceu em seu quarto na Casa do Estudante aos 79 anos, em 31 de dezembro de 1972. Teria vivido na Casa até sua morte pelo fato de ter sido o benemérito com a doação do terreno. 

Foi membro da Academia Cearense de Letras, onde ocupou a Cadeira nº 1, cujo patrono era Adolfo Caminha. Foi um poeta boêmio, um dos pioneiros do movimento modernista, com formação clássica e independência literária. Diversos são os seus versos, muitos deles, românticos, líricos, parnasianos.
Jean-Pierre Chabloz, pintor desse Retrato do Poeta Sidney Neto, nasceu em Lausanne, na Suíça, em 1910. Foi pintor, desenhista, crítico de arte, músico, professor e publicitário. Em 1940, devido à Segunda Guerra Mundial, transferiu-se para o Rio de Janeiro com a família. Em 1943 foi convidado para trabalhar em Fortaleza. Em 1945, voltou ao Rio de Janeiro e expôs na galeria Askanay com artistas cearenses.

O retrato do poeta Sidney foi arrematado em um leilão de obras de arte e doado à Casa do Estudante do Ceará pelo ex-morador da Casa e ex-Vice-Prefeito de Fortaleza, Sr. Gaudêncio Gonçalves de Lucena, no dia 11 de agosto de 2021, por ocasião da celebração dos 87 anos de sua inauguração (texto adaptado de um texto do acervo da Casa do Estudante).
 

Casa do Estudante: “a sinfonia inacabada”

Sinfonia Inacabada

O processo de construção da Casa do Estudante foi longo e desafiador. De acordo com uma placa de bronze anexada nas paredes da Casa do Estudante, é possível identificar o ano de 1934 como marco fundador da Casa do Estudante do Ceará, ano de inauguração da “pedra fundamental” quando o presidente do Centro Estudantal era o jovem Francisco Vasconcelos Arruda. Vale observar que na edição de março de 1934 da revista Folha Estudantal, o ano que marcaria o surgimento da Casa do Estudante seria 1933. 

A primeira inauguração da Casa do Estudante, já situada na rua Nogueira Acioly, ocorreu em 1941, e a conclusão veio apenas em 1952, sob a presidência de Aquiles Peres Mota, 18 anos após o início das obras. Devido à lentidão do processo, a Casa ficou conhecida como "A Sinfonia Inacabada". Durante esses anos, o Centro Estudantal realizou diversas campanhas para arrecadar fundos e concluir a construção. Houve quermesses, espetáculos, sorteios, torneios esportivos e festas, incluindo a memorável "Festa das Flores", realizada no Teatro José de Alencar em março de 1934. Outro momento marcante foi o sorteio de um automóvel "Graham", promovido pela Loteria Federal.

A inauguração oficial da Casa do Estudante do Ceará em 1952

Inauguração 1952 Foto 1
Com essa fotografia houve um registro marcante da história estudantil cearense: a inauguração definitiva da Casa do Estudante do Ceará em 1952. O que poderia parecer apenas mais uma solenidade oficial, na verdade foi a coroação de quase duas décadas de mobilização e campanhas.
É flagrante a presença exclusivamente de homens nesse registro fotográfico.
Na imagem, tem-se lado a lado representantes do poder político e religioso: Dom Eliseu; o  presidente da Casa do Estudante Aquiles Peres Mota; o ministro da Educação e Saúde Simões Filho; o governador Raul Barbosa e o deputado federal Menezes Pimentel. Para além das formalidades, há uma simbologia significativa dessa inauguração enquanto conquista da luta estudantil.

Inauguração 1952 Foto 2
A Casa do Estudante foi idealizada ainda em 1933. Inaugurada de forma parcial em 1941, permanecendo por anos sendo chamada de “a sinfonia inacabada”. Projeto que parecia não ser finalizado um dia. Porém, o dia chegou. O ano de 1952 foi um marco na transformação do anseio em realidade: no “espaço de pedra e cal” houve a inauguração mais completa. Desde sua primeira inauguração em 1941, a moradia estudantil passou por ampliação dos cômodos e do número de estudantes moradores. Com a conclusão de sua edificação, mais e mais estudantes passaram a residir na Casa. Garantindo não apenas moradia, mas também a permanência nos estudos e a possibilidade de sonhar dessa juventude estudantil, juventude diversa.
2025 marca os 91 anos da Casa do Estudante do Ceará: desde a sua idealização; inauguração da “pedra fundamental”; conquista do terreno; campanhas e mais campanhas financeiras para a sua construção; inaugurações parciais e definitiva; reformas; muitas mobilizações estudantis em defesa da sua continuidade e melhoria… A Casa do Estudante do Ceará continua sendo moradia para a juventude estudantil diversificada e de vários lugares, e é constante a pauta em defesa da sua qualidade.



Inauguração Oficial - Diretoria 1952

Presidente: Aquiles Peres Mota Sec-Geral: Donato Ângelo Leal Secretário: Vitalino A. Bezerra 2º Secretário: Stênio L. Linhares (Subst.) Tesoureiro Geral: Gabriel Montefusco 1º Tesoureiro: José de Sousa Tomé 2º Tesoureiro: Maury A. Oliveira (Subst.) Orador Oficial: Manuel Lima Soares

As 10 mulheres

A Casa do Estudante do Ceará era uma residência estudantil exclusivamente masculina? Como vai acontecer a entrada das mulheres na Casa como moradoras? Um dos momentos interessantes dessa história foi o ano de 1991, com a tentativa de transformá-la em residência mista, abrigando ambos os sexos. Em fevereiro desse mesmo ano, houve a entrada de 10 residentes para um período de teste, notícia que foi divulgada no jornal Diário do Nordeste. Houve muita articulação, movimentação política e engajamento feminino para a realização de uma assembleia que discutiria sobre a abertura oficial de vagas femininas na CEC. Um dos registros escritos que comprovam isso,  foi o do residente Alonso Alencar, estudante de Ciências Sociais da UFC, que escreveu o manifesto "Por que a CEC deve ser mista?" A assembleia teve maioria favorável para a permanência das residentes mulheres, mas mesmo assim muitas sofreram com assédio dentro da Casa, como demostra o texto  “Justiça ou Preconceito” de 1992, que foi distribuído para os moradores e moradoras da época, denunciando os casos. Esse texto encontra-se no Memorial da Casa.

A primeira presidenta da Casa do Estudante

Sandra Leite

Sandra Leite

Sandra Leite foi a primeira mulher a presidir o Conselho Diretor da Casa do Estudante do Ceará - CEC. Ela ocupou o cargo por dois mandatos, sendo eleita pela primeira vez em 1998 e reeleita em 1999. A sua eleição ocorreu num período de grande dificuldade financeira para a instituição, o que, segundo ela, teria sido um fator decisivo para a sua escolha. A própria Sandra Leite considera que sua atuação foi importante por abrir caminho para que outras mulheres também pudessem ocupar o cargo de presidência. O mandato de Sandra focou na busca por recursos para a Casa do Estudante, o que a levou a atuar em espaços públicos e a ter visibilidade na mídia.

Depois da gestão pioneira de Sandra Leite, outras sete mulheres também assumiram a presidência da Casa do Estudante do Ceará: Sara Martins,  em 2012; Janara Matias, em 2014; Milena Silva, em 2019; Nayelle Costa, em 2020; Vitorya Almeida, em 2023; Thais Berdine, em 2024; e, mais recentemente, Fran Cavalcante, em 2025.Depois da gestão pioneira de Sandra Leite, outras sete mulheres também assumiram a presidência da Casa do Estudante do Ceará: Sara Martins,  em 2012; Janara Matias, em 2014; Milena Silva, em 2019; Nayelle Costa, em 2020; Vitorya Almeida, em 2023; Thais Berdine, em 2024; e, mais recentemente, Fran Cavalcante, em 2025.

Vale salientar que as moradoras da Casa e ex-presidentas Vitorya Almeida e Thais Berdine estão à frente do Memorial da Casa do Estudante, na Curadoria,   Pesquisa e Montagem dessa exposição de caráter permanente. 

Fortalecendo a presença de mulheres, Carla Sousa trabalha como secretária executiva da Casa do Estudante desde o ano de 2016.

As ações sobre a trajetória de Sandra Leite foram retiradas do trabalho da ex-moradora da Casa do Estudante Renata Santos Ferreira, intitulado A trajetória da primeira mulher na presidência do Conselho Diretor da Casa do Estudante do Ceará, de 2017. (Trabalho de Conclusão do Curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará – UECE).

Diretorias da Casa do Estudante de 2023 em diante

Gestão 2023

Da esquerda para a direita: Alexandre Fernandes (Segundo Tesoureiro); Iandra Brito (Segunda Secretária); Vitorya Almeida (Presidenta) e Thais Berdine (Primeira Secretária).

Os primeiros meses foram especialmente intensos: a Casa estava em um momento delicado financeiramente, e era preciso correr atrás do repasse para pagar as contas básicas e evitar a interrupção de serviços essenciais. O que começou como uma corrida contra o tempo, acabou se tornando também uma escola prática de organização, articulação e resistência.

Avanço essencial da Gestão 2023 foi a conquista de dois repasses financeiros ao longo do ano, um feito inédito na história recente da CEC, e resultado direto do esforço contínuo em manter diálogo próximo e responsável com os órgãos competentes. Esses recursos permitiram que a Casa, que no início do ano mal tinha condições de se manter, finalmente pudesse respirar e planejar melhorias concretas.

No campo estrutural, duas conquistas se destacaram. A reforma dos banheiros, articulada pela gestão de 2022, foi finalmente executada em 2023, devolvendo dignidade e condições adequadas de uso a um espaço que há anos necessitava de intervenção. Já a reforma da lavanderia só foi possível graças ao apoio de um parceiro externo, que reconheceu a importância do trabalho da CEC e se dispôs a contribuir diretamente para a melhoria da infraestrutura. Essas ações, somadas ao esforço financeiro do período, marcaram uma mudança real na qualidade de vida dos moradores e moradoras.

Um dos marcos mais significativos de 2023 foi também a construção de novas parcerias que mudaram o rumo da Casa. O processo no Ministério Público, que inicialmente trouxe preocupação e incerteza, acabou se transformando em uma oportunidade inesperada. A promotora dra. Rita Dalva se tornou uma verdadeira madrinha da CEC, acompanhando de perto nossas necessidades e abrindo portas. A partir desse diálogo, a Casa conheceu novos apoiadores, como o senador Júlio Ventura, empresários da construção civil, e a Casa de Vovó Dedé, que rapidamente se tornaram aliados importantes para a instituição.

Foi também em 2023 que a CEC retomou o contato com outras Casas de Estudantes do país. Reabrimos diálogos, trocamos experiências e reconstruímos vínculos que haviam se perdido ao longo do tempo. Esse movimento culminou na participação da Casa no Congresso Nacional de Casas de Estudante, um marco que recolocou a instituição no cenário nacional, fortaleceu a troca de práticas e reafirmou sua relevância histórica no movimento estudantil. Para uma gestão jovem, ainda em fase de aprendizado, essa articulação representou não apenas crescimento, mas a certeza de que a CEC faz parte de uma rede muito maior de luta, solidariedade e memória.

Diretoria da Casa do Estudante - Gestão 2024

Gestão 2024

Da esquerda para a direita: Iandra Brito (Vice-Presidenta); Thais Berdine (Presidenta); Janaína Ferreira (Segunda Tesoureira) e Maria Marthins (Primeira Tesoureira).

A Gestão de 2024 foi composta até o final de suas atividades em dezembro de 2024 pelas seguintes estudantes: Thais Berdine (Presidenta);  Iandra Brito (Vice-Presidenta); Maria Martins (Primeira Tesoureira) e Janaina Ferreira (Segunda Tesoureira). A atuação dessa Gestão foi marcada por uma forte articulação externa com diversas Secretarias Estaduais e outras instituições. As áreas de atuação abrangeram Educação, Diversidade, Povos Indígenas, Juventude e Esportes, além do estabelecimento de parcerias com o Instituto Mirante e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.
Foram viabilizadas duas emendas parlamentares no valor total de R$ 750.000, sendo R$ 500.000 destinados à reforma da fachada e R$ 250.000 para projetos de acessibilidade. Em parceria com a Construtora Ari de Sá, no valor de R$ 350.000, foram realizadas a pintura das alas, reparos nos banheiros e forro, conserto de calhas, colocação de mesas no restaurante e reestruturação de outros espaços. Também foi realizada uma intervenção artística de grafite no muro da quadra, em parceria com a CUFA (Central Única das Favelas).

Por meio do Projeto Coração Solidário, foi obtido um prêmio de R$ 45.000, que permitiu a retomada do café da manhã, a construção de uma sala de convivência e a inauguração do Memorial da Casa do Estudante. Para a melhoria da qualidade da alimentação, contamos também com  a essencial contratação da cozinheira Irene Reis. A instituição também foi incluída no programa Ceará Sem Fome, recebendo a doação de centenas de quilos de alimentos.

Outro avanço importante foi o credenciamento no SESC, garantindo aos moradores acesso a restaurantes e atendimentos médicos. Firmou-se ainda uma parceria com a Faculdade Ari de Sá, onde alunos do curso de Psicologia passaram a realizar estágios com os moradores da CEC.

No âmbito da extensão comunitária, foi iniciado o contato com a comunidade da Graviola através do Projeto Girassol, com um diagnóstico e mapeamento por meio de pesquisa quantitativa que levantou dados de mais de 200 moradores. Esse trabalho culminou na realização do primeiro evento de Dia das Crianças e Natal na comunidade, promovido pela CEC. A instituição também iniciou uma parceria com o Instituto Fortalecendo Caminhos, que doou ingressos para o Sana para os moradores da Casa.

A CEC recebeu homenagem na Câmara dos Vereadores e na Assembleia Legislativa, além da Comenda Herói João Nogueira Jucá. Retomou sua participação no Encontro Nacional de Casas de Estudante. E recebeu a doação de computadores novos pelo IAPS (Instituto de Assistência e Proteção Social). Foi iniciada a comemoração de aniversários coletivos para todos os moradores e moradoras, reforçando a integração e o acolhimento.

Diretoria da Casa do Estudante - Gestão 2025 – 2027

Gestão 2025

Primeiro plano da imagem da esquerda para a direita: Yandra Barros (Primeira Secretária); Gabriel Matos (Primeiro Tesoureiro) e Fran Cavalcante (Presidenta). Segundo plano da imagem da esquerda para a direita: João Vitor Soares (Vice-Presidente) e Gabriel Sousa (Segundo Tesoureiro).

Secretária Executiva da Casa do Estudante do Ceará

Amélia Carla de Sousa
Amélia Carla de Sousa é secretária executiva da Casa do Estudante do Ceará - CEC desde 2016. Ela vai além das atividades de secretariado, atuando diretamente com o conselho diretor e contribuindo  com a administração da CEC por meio de seus conselhos e sugestões. É o “arquivo vivo” da instituição, guardiã das experiências da Casa que compartilha para a construção de um espaço mais harmonioso. É um exemplo de profissional e reforça a presença e o protagonismo feminino dentro da Casa do Estudante.

A esperança mora na Casa do Estudante

Texto de Rita Arruda D'Alva Martins Rodrigues (Promotora de Justiça)

A atuação como membro do Ministério Público nos proporciona experiências que vão além da função institucional. No trabalho junto a organizações da sociedade civil, acompanho diversas iniciativas, mas poucas me marcaram tanto quanto a visita à Casa do Estudante, em Fortaleza.

A Casa é uma associação privada, sem fins lucrativos, que oferece moradia gratuita a estudantes de baixa renda. Sua manutenção depende de um percentual da verba arrecadada pela Prefeitura com a emissão de carteiras estudantis, além de emendas parlamentares e doações. No entanto, enfrenta grandes dificuldades para receber os repasses devidos pelo município e para obter apoio da sociedade civil. É uma luta constante por reconhecimento, recursos e dignidade.

Em 2023, realizei uma inspeção para verificar a regularidade da instituição. Encontrei um prédio com sérios problemas estruturais, mas, acima de tudo, encontrei jovens determinados, movidos pelo desejo de estudar e transformar suas vidas. São protagonistas de uma mudança silenciosa, mas profunda.

A força de vontade, por si só, não basta. Esses estudantes precisam de apoio concreto. O Ministério Público, além de sua função acusatória, tem o dever de garantir direitos e fortalecer iniciativas que promovem justiça social. Foi com esse propósito que, após a visita, iniciamos uma mobilização envolvendo instituições, empresários, representantes do poder público e cidadãos comprometidos.

O impacto foi imediato. A caixa d’água em risco de desabamento foi restaurada. Os banheiros foram reformados. O centro administrativo, antes tomado por cupins, foi reestruturado. O refeitório, antes vazio, passou a acolher. E, o mais importante: os jovens voltaram a sonhar.

Hoje, pensam em ter uma academia, aulas de música, atendimento psicológico. Sonham com um ambiente mais adequado para estudar e viver. Estão construindo, com esforço e apoio, um futuro mais digno.

Como disse Aristóteles: “A esperança é o sonho do homem acordado.” Esses jovens estão acordados — e realizando.

Cabe a nós, sociedade civil e poder público, o compromisso de apoiar essa jornada. Investir em educação é, sim, investir no futuro. E a Casa do Estudante é um lugar onde esse futuro já começou a acontecer.

Créditos da Exposição

Curadoras do Memorial

Curadoria, pesquisa e montagem do Memorial da Casa do Estudante.
Da esquerda para a direita: Vitorya Costa de Almeida, Afonsina Maria Augusto Moreira e Thais Berdine Euclides Teixeira.

Apoio:

CASA DO ESTUDANTE DO CEARÁ

Curadoria, Pesquisa e Montagem:
  • Afonsina Maria Augusto Moreira
  • Thais Berdine Euclides Teixeira
  • Vitorya Costa de Almeida

Minicurrículos das autoras:

Afonsina Maria Augusto Moreira graduou-se em História pela Universidade Federal do Ceará - UFC. Fez mestrado e doutorado em História Social na PUC-SP. Especialização "Lato Sensu" em Confluências Africanas e Afro-brasileiras e as relações étnico-raciais na Educação (Faculdade UNIDA-ES e UNIPERIFERIAS). Dentre suas publicações, destaca-se o livro Juventude da Pátria A(r)mada: o Centro Estudantal Cearense em Fortaleza, 1931-1945, publicado pelo Museu do Ceará. Esse livro é um fragmento de sua dissertação de Mestrado, nele, há um capítulo dedicado à história da Casa do Estudante do Ceará. Foi professora substituta no curso de História da UFC e pesquisadora do Museu do Ceará. Participou da Curadoria, Pesquisa e Montagem do Memorial em formato de exposição permanente “Casa do Estudante do Ceará - memorar e comemorar: 90 anos de concretude”, nas edições de 2024 e 2025. Afonsina Maria foi agraciada com Certificados pela relevância de seus estudos para a história da Casa do Estudante, tanto na Câmara Municipal de Fortaleza (2024), quanto na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (2024). Foi militante estudantil entre as décadas de 1980 e 1990 em Fortaleza. Atua nas áreas de pesquisa e orientação.

Thais Berdine Euclides Teixeira é moradora da Casa do Estudante do Ceará - CEC desde 2022, quando cursava o 3° ano do ensino médio. Foi Primeira-Secretária do Conselho Diretor da Casa do Estudante (2023); Presidenta do Conselho Diretor da Casa do Estudante (2024). Atualmente, é Coordenadora do Departamento de Relações Externas da Casa do Estudante. Participou do memorial em formato de exposição permanente “Casa do Estudante do Ceará - memorar e comemorar: 90 anos de concretude” (2024) na curadoria, pesquisa e montagem. Foi agraciada com dois Certificados na Câmara Municipal de Fortaleza (2024), pela relevância de seus trabalhos e estudos acerca da Casa do Estudante e também foi semifinalista no Prêmio Naprática Protagonismo Universitário (2025), ficando entre os 25 melhores estudantes do Nordeste. Graduanda de Ciências Sociais na Universidade Federal do Ceará desde 2023. É bolsista do PIBID - UFC (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) e estagiária de Pesquisa e Acervo no Museu da Imagem e do Som. É militante do Movimento Estudantil.

Vitorya Costa de Almeida é graduanda em História pela Universidade Federal do Ceará – UFC desde 2021. É moradora da Casa do Estudante do Ceará – CEC desde 2019, quando ingressou na instituição para cursar o 1º ano do ensino médio. No âmbito da Casa, exerceu diferentes funções: foi Conselheira do Conselho Deliberativo (2022); Presidenta do Conselho Diretor (2023); e Coordenadora do Departamento de Relações Externas (2024). Atualmente, integra o Departamento de Relações Externas.
Participou da curadoria, pesquisa e montagem do memorial em formato de exposição permanente “Casa do Estudante do Ceará – memorar e comemorar: 90 anos de concretude” (2024). Pela relevância de seus trabalhos e estudos sobre a Casa do Estudante, foi agraciada com Certificados na Câmara Municipal de Fortaleza (2024) e na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (2024). É militante do Movimento Estudantil e tem interesse nas áreas de memória e patrimônio.